Insônia: A briga entre o dia e a noite
O sono
interrompido pode ter conseqüências bem mais graves do que se imagina. Aos
poucos, ele acaba com a sua qualidade de vida
Gabriela Scheinberg
Para muitas pessoas, a hora de dormir é o momento mais
aguardado do dia. É a hora do necessário descanso, após o cotidiano corrido dos
que vivem nas grandes cidades. Mas, para quase 63 milhões de brasileiros, o
anoitecer é um dos momentos mais difíc eis do dia. Eles sabem o que os aguarda:
uma outra noite se revirando na cama. E contar carneirinhos já não ajuda mais.
A insônia é mais comum do que se imagina. Quatro em cada dez pessoas não dormem
bem. Ou conseguem dormir, mas acordam no meio da noite, e amargam, insones, cada
minuto, até o despertador tocar. Os que já passaram por isso sabem o pesadelo
que é o dia se guinte, após uma noite maldormida. O insone se sente mal
humorado, irritado e desmotivado. Esse quadro pode ser passageiro. Pode ser que,
na noite seguinte, o sono seja melhor e se recupere o atraso dos dias
anteriores. Ou não: a insônia de uma noite pode se repetir na próxima, e assim
por diante.
Estudos internacionais mostram que ficar 24 horas sem dormir afeta o desempenho
mental. Outras pesquisas revelam ainda que a falta de sono prejudica a memória.
Todos esses efeitos são somados à inevitável sonolência posterior a uma noite
maldormida. O distúrbio afeta o trabalho, deixando o insone mais preocupado e
estressado. O resultado é um ciclo vicioso de insônia e stress, que, para ser
quebrado, exige muita força de vontade e, em algumas vezes, a ajuda de
especialistas.
O cérebro recebe estímulos durante o dia, mas não os elimina à noite. As
preocupações diárias continuam na mente, mesmo na hora de dormir. O stress e a
preocupação são os maiores inimigos. "A sobrecarga no trabalho ou na escola
afeta o sono", explica Ademir Baptista Silva, neurologista da Unifesp
(Universidade Federal de São Paulo). Mas essa não é uma regra válida para todos.
A reação ao stress depende muito da pessoa. Certos traços de personalidade
predispõem à insônia. É o caso da insegurança. "A pessoa fica acordada à noite,
antecipando os desafios do dia seguinte e imaginando se será capaz de
superá-los", diz Silva. Outro traço que facilita a insônia é o ficar remoendo os
últimos acontecimentos, sem discuti-los com os outros e exteriorizá-los . Certas
profissões também são caracterizadas por uma prevalência de insones. É o caso de
médicos, jornalistas e corretores de bolsas de valores. São profissionais do
stress, com demandas diárias que podem afetar o sono.
Como resultado das noites maldormidas, a pessoa começa a se irritar no trabalho,
perdendo a paciência facilmente e sentindo uma dificuldade maior em completar
suas tarefas. Isso a deixa cada vez mais preocupada e estressada, o que acaba
sendo descontad o no sono. Se esse quadro parece familiar, então você tem um
distúrbio do sono. O que assusta é que pouquíssimas pessoas sabem que esse é um
problema tratável. Segundo Silva, apenas 3% das pessoas que têm insônia
identificaram o problema. Para muitos, não dormir bem faz parte da vida corrida
de uma metrópole. É o preço que se paga por trabalhar demais. "Uma pessoa pode
passar toda a sua vida sem nunca quebrar esse ciclo", diz Flávio Alóe, do Centro
de Sono do Hospital das Clínicas, em São Paulo.
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O lugar
do sono no cérebro |
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Vigília (acordado)
Centro localizado no hipotálamo regula o relógio natural do corpo, chamado
de ciclo circadiano, responsável pela alternância entre o sono e a vigília
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Sono não-REM (fases 3 e 4) Um centro também localizado no hipotálamo é responsável pelo sono profundo. Essa fase é predominante na primeira metade da noite |
Sono
REM
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Sem diagnóstico
Exemplo disso é o caso de Angela Maria Bischoff, de 53 anos. Ela começou a ter
insônia aos 25. "Eu ficava várias noites sem dormir", conta. Como isso não era
constante, ela nunca procurou um médico especializado em distúrbios do sono. Mas
costumava se c onsultar com o ginecologista, que lhe receitava remédios
tranqüilizantes. "Cheguei a tomar remédios para dormir, mas eles só resolviam o
problema imediato. Nunca soube a causa da minha insônia", reclama. "Dormia mal
e, na manhã seguinte, estava indis posta. O dia não rendia." Para Angela, a
insônia não está relacionada à idade. "É um problema que tenho desde sempre e
nunca tratei."
Estudos recentes, realizados por dois centros de pesquisa dos Estados Unidos,
indicam que a qualidade do sono começa a deteriorar nos anos em que a pessoa é
mais produtiva, muito antes do que se pensava. Até então, acreditava-se que
apenas pessoas ido sas tinham distúrbios de sono relacionados à idade.
Segundo as pesquisas, a qualidade do sono começa a ser afetada entre os 25 e os
45 anos. Com o avanço do tempo, as pessoas despertam cada vez mais cedo, dormem
menos e acordam mais durante a noite. Todos esses fatores afetam o sono e a
qualidade do d escanso. Mas há aqueles que dormem a noite toda e, mesmo assim,
não se sentem descansados na manhã seguinte. Por outro lado, há quem durma menos
de oito horas por noite - período recomendado pelos especialistas - e se sinta
em perfeitas condições para enfrentar o dia.
Esse era o caso de Renato Jacob, 26. Ele sempre dormiu poucas horas por noite:
no máximo seis. Isso nunca o incomodou. Mas no último ano, desde que assumiu o
cargo de diretor para a América Latina de uma instituição financeira
norte-americana, começou a ter insônia.
"A quantidade de sono não é fundamental. A qualidade é o que importa e há noites
em que não durmo bem", afirma Renato, que tenta colocar o sono em dia nos finais
de semana, mas sempre acaba acordando mais cedo e dormindo mal. Ele atribui o
problema ao stress que passa diariamente. "É impossível deitar e não pensar no
trabalho."
Acordar cansado
O problema
de Renato e de outros insones ocorre devido à redução do tempo de sono REM
(movimentos rápidos dos olhos, na sigla em inglês). É nessa fase que a mente
descansa e que os sonhos ocorrem. É a etapa do sono mais profundo. Para chegar
ao sono REM, a pessoa precisa passar antes por quatro outros estágios. Eles
funcionam como degraus necessários para se descer ao sono REM. Os primeiros dois
estágios são considerados fases superficiais de sono, dos quais uma pessoa
acorda facilmente. Um adulto pas sa a maior parte da noite nesses estágios. Eles
são necessários para atingir a próxima etapa. O sono profundo ocorre nas fases
três e quatro. É quando ocorre uma redução do metabolismo e a pessoa
efetivamente descansa.
Embora uma pessoa sem distúrbios de sono passe um quarto da noite na fase REM,
esse período não ocorre seqüencialmente. Após entrar na fase profunda do sono, a
pessoa tem o que é chamado de microdespertar. Ela não acorda, mas volta para a
etapa inicial. Se uma pessoa acorda cansada, é sinal de que teve vários
microdespertares, o que reduziu o tempo total de sono REM. Após o microdespertar,
para chegar novamente à fase mais profunda, é preciso reiniciar o processo. Com
um tempo limitado para dormir, uma pessoa pode estar quase chegando à fase REM e
acordar com o despertador antes de conseguir descansar adequadamente. O cansaço,
nesse caso, é inevitável.
A insônia ocorre quando há a união de três fatores. O primeiro é a
predisposição, como os traços de personalidade ou o stress da profissão. Mas
isso não basta. É preciso também um outro fator, o precipitante. Ele pode ser
qualquer problema que cause ma is stress ou preocupação, como o vestibular ou
uma apresentação importante no trabalho. Esse quadro pode levar a uma insônia
esporádica. Se for resolvido o problema, o sono volta ao normal - exceto se
houver também o terceiro fator, o perpetuante.
Afeta da pelas noites maldormidas, a pessoa começa a se preocupar de antemão
sobre como será sua noite. Isso perpetua a ansiedade e torna o problema crônico.
A privação de sono deixa o insone mais nervoso. Ele começa a adquirir hábitos
que podem dificultar o sono, como consumir mais café ou começar a fumar. "Essa
ansiedade dificulta o sono, a ponto de tornar o problema mais sério", diz Alóe.
| icas para dormir melhor |
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A falta de sono afeta o reflexo e o tempo de reação da pessoa, deixando-a mais
suscetível a sofrer acidentes de trânsito. Os insones têm também um risco maior
de depressão ou ansiedade. Levantamentos estatísticos mostram ainda que quase
metade das pe ssoas que sofrem de insônia crônica acaba recorrendo ao uso
abusivo de álcool e drogas.
Soneca tem hora
Os
tratamentos atuais não medicamentosos para a insônia são eficientes em 85% dos
casos. Eles variam desde a restrição do sono - reduzir o tempo que a pessoa pode
dormir - até exercícios de relaxamento e meditação, como a ioga. Seguir algumas
dicas para melhorar o sono também pode ajudar, como dormir no mesmo horário e
evitar fazer ginástica antes de dormir. Os médicos recomendam também que o
insone evite dormir entre as 17 horas e 21 horas. A soneca da tarde pode tirar o
sono da noite. Isso ocorre por causa de um hormônio chamado melatonina. Uma das
funções desse hormônio é estimular o sono. Se a pessoa dorme antes do horário
habitual, a melatonina será liberada antecipadamente, reduzindo a quantidade que
deveria ser produzida à noite.
A melatonina é inibida pela luz. Para evitar a sonolência durante o dia após uma
noite maldormida, recomenda-se trabalhar ou estudar em um ambiente bem
iluminado. Caso contrário, a melatonina será liberada e a pessoa terá sono na
hora errada.
Outra indicação para melhorar o sono é evitar dormir próximo ou em locais
barulhentos. Segundo o especialista Fernando Pimentel Souza, da UFMG
(Universidade Federal de Minas Gerais), o barulho não deixa a pessoa chegar ao
sono profundo. "Até mesmo o so m mais leve já pode fazer a pessoa sair do sono
REM. Com o barulho, dificilmente ela chegará novamente a essa fase. O resultado
é um sono fragmentado, sem qualidade", relata.
Medicamentos
Nos casos
que não se resolvem com medidas preventivas, medicamentos são recomendados.
Embora eficientes em casos esporádicos, a maior parte dos produtos, chamados
ansiolíticos, não deve ser usada durante um período maior do que 30 dias. "Quase
todos o s remédios causam dependência", alerta Stella Tavares, do Hospital
Albert Einstein, em São Paulo. O mais novo medicamento a integrar o arsenal
contra a insônia é o zaleplom. A vantagem desse produto é que ele não afeta o
desempenho motor do paciente n a manhã após a ingestão. Muitos ansiolíticos
deixam a pessoa letárgica no dia seguinte. Os medicamentos não fazem milagres.
Eles apenas ajudam no combate ao problema imediato. O tratamento contra insônia
precisa ser avaliado pelo médico para que a verdadeira causa seja encontrada.
Recomenda-se uma combinação de remédio e psicoterapia, na maior parte dos casos
de insônia crônica. Segundo Stella, grande parte dos insones estão fadados a
passar noites em claro em decorrência de problemas emocionais. Mas poucos
procuram um médico para descobrir a real causa do problema.
Dados da Fundação Nacional de Sono dos Estados Unidos indicam que apenas 5% das pessoas procuram o especialista para tratar a insônia. Enquanto 26% dos insones são tratados por médicos como clínicos gerais e ginecologistas, a maioria nunca procurou aju da. "É preciso identificar a causa do problema", diz Alóe. "Tratar a insônia é o primeiro passo para melhorar a qualidade de vida."
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Noite
ruim
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72%
não dormem bem |
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Fonte: NIH (Institutos Nacionais de Saúde, dos EUA) Fonte: National Sleep Foundation |
| Anote |
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Para Navegar |
Ilustração: insônia, Pepe Casals
Fonte: Merck Manual for Medical Information